A edição luxuosa de O Pavão Misterioso em quadrinhos
As editoras Luzeiro, de São Paulo, e Tupynanquim, de Fortaleza, lançaram em parceria O Pavão Misterioso – Cordel em Quadrinhos. A edição luxuosa faz parte do acervo da Editora Luzeiro que herdou a quadrinização do clássico do cordel da antiga Editora Prelúdio, uma das primeiras editoras de São Paulo. Lançado na década de 60, o trabalho de Sérgio Lima sobre o texto de José Camelo encabeçou a coleção de cordeis quadrinizados dirigidos ao leitor de HQs.
Com nova paginação e adequação dos balões a obra tomou nova vida e alçou novo voo. O Romance do Pavão Misterioso é, talvez, o clássico mais importante do Cordel Brasileiro, bem como o mais conhecido. Aproveitado pela televisão, pela música e pelo teatro transformou-se em obra síntese, modelar. Acompanha essa fama o seu rico percurso histórico. Desde sua primeira publicação, o “folheto do Pavão” já vendeu aproximados 20 milhões de exemplares.
A quadrinização descoberta pelo pesquisador Marco Haurélio concretizou a parceria com o editor cearense Klévisson Viana, reconhecido quadrinista, ganhador de três prêmios HQMix. O resultado é uma obra prima dos quadrinhos em um casamento feliz com a tradicional forma poética do cordel. Os traços impecáveis de Sérgio Lima deram vida ao intrépido Evangelista e sua amada Creusa, protagonistas da narrativa. Escrito na primeira metade do século passado, o texto é visionário ao apresentar a máquina, que viria a ser o helicóptero, usada para raptar a bela condessa.
O leitor tradicional do cordel e os amantes das HQs tem, agora, a oportunidade de guardar para sempre um tesouro valioso: O Pavão Misterioso atemporal, com ecos de As Mil e Uma Noites e cheiro de ficção científica, voando para seus olhos, movido pelo mesmo combustível que, há séculos, impulsiona a criação artística: o sonho.
Pavão Misterioso – Cordel em quadrinhos
José Camelo de Melo Resende e Sérgio Lima
Repaginação e balões de Klévisson Viana
Editora Luzeiro, Tupynanquim Editora
ISBN 978-85-7410-019-7
21cm X 28cm
48 páginas, R$ 25,00
Confira as páginas biográficas dos autores


O produtor gráfico Klévisson Viana

A saga de um editor cordel
Eleuda de Carvalho, especial para o jornal O Povo, Fortaleza, Ceará
“Tô indo como Deus quer”, e emenda numa gaitada, tirante ao relincho satisfeito de um jegue cardão. É Klévisson Viana, poeta e cartunista nascido em Canindé, responsável pela renovação de uma das mais engenhosas criações populares: o cordel. Através da Tupynanquim, Klévisson publica autores contemporâneos e reimprime os mais famosos títulos de folhetos, que fizeram a fama de poetas, xilógrafos e editores durante os anos de 30 a 50. Os mais novos lançamentos são Iracema, cordelizado por Alfredo Pessoa de Lima e reeditado para comemorar os 140 anos do romance de José de Alencar, e uma caixa com 12 folhetos de Leandro Gomes de Barros, nascido também há 140 anos.
O Romance de Iracema vem com dois tipos de capa, em amarelo e em papel reciclado, todo ilustrado e com o histórico do autor, o poeta e advogado paraibano Alfredo Pessoa de Lima. “A coisa mais maravilhosa deste folheto é que é extremamente atencioso ao romance de José de Alencar”, repara Klévisson. A caixa de Leandro Gomes de Barros vem com os folhetos Juvenal e o Dragão, O Testamento do Cachorro, Meia noite no cabaré, A sogra enganando o diabo, A vida de Pedro Cem, A vida de Cancão de Fogo, Casamento e divórcio da lagartixa, O cavalo que defecava dinheiro, O cachorro dos mortos e A Donzela Teodora, além do folheto sobre a vida do poeta, O pioneiro da literatura de cordel, por Klévisson Viana (texto e xilo da capa). Os folhetos podem ser adquiridos nas livrarias Livro Técnico, nas lojas da Ceart e pontos de venda da Praça do Ferreira (banca de informações turísticas), e na banquinha do Dragão do Mar. “Desde que o Centro foi fundado, a gente tá por lá”.
O xodó por cordéis começou cedo, relata Klévisson. “Desde menino véi que compro folhetos. Me enchia de folhetos nas festas do Canindé. Eu trabalhava de vendedor ambulante. Nas romarias, vendia imagem de santo, tercinhos, bijuterias. No inverno, vendia bombom. Hoje não tenho só a maior coleção de folhetos mas de folclore. São 286 livros, verdadeiras raridades que eram do escritor Barros Alves. Ele não quis vender pra ninguém, só pra mim. Só que meu dinheiro tava mais curto do que coice de barrão. Ele pediu “, eu disse, dou a metade, que era pra ele desistir… Me pegou na palavra, tive que comprar”. No balaio, ” de Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Silvio Romero, Alceu Mainardi, Juvenal Galeno, Catulo da Paixão. “Só os fracos”. (…)
O gosto que começou na infância tem antecedentes familiares, lembra Klévisson. O bisavô, seu Fitico, era primo do cantador Jacó Passarinho, “aquele da famosa peleja com o Cego Aderaldo, registrada em livro por Leonardo Mota. E minha vozinha, mãe de meu pai, Alzira de Sousa, já era uma colecionadora e leitora de folhetos. Contaminou meu pai com este gosto. Meu pai tentou se tornar um cantador – é improvisador de mão cheia – mas nunca foi incentivado pela família. Papai é poeta mas nunca publicou nada. Sempre tem uma estrofe, uma glosa na ponta da língua pra receber as pessoas. Ele tem um caderno, com as coisas que ele escreve. Qualquer dia, roubo aquele caderno”.
Fonte: O Povo (23/4/2005)

O novo voo do Pavão Misterioso
Marco Haurélio, para a apresentação do livro
A presente versão em quadrinhos do grande clássico de José Camelo de Melo Resende, o Romance do Pavão Misterioso, marcou uma experiência inovadora da editora paulistana Prelúdio. A casa publicadora, dirigida, à época, por Arlindo Pinto de Souza (1926-2003), foi responsável por dar uma nova roupagem à literatura de folhetos do Nordeste, publicando, desde 1952, livretos em tricromia e com formato maior que o similar nordestino: 13,5 x 18 cm. Quando ousou transpor clássicos do cordel para o formatos das HQs, em fins da década de 1960, a Prelúdio se valeu do que tinha de melhor em seu time de ilustradores: os mestres Nico Rosso e Sérgio Lima. Este último recriou, com seu traço peculiar, além do Pavão Misterioso, o folheto de gracejo de José Pacheco, A Chegada de Lampião no Inferno. O ítalo-brasileiro Rosso desenhou grandes sucessos editoriais, como João Acaba-Mundo e a Serpente Negra, de Minelvino Francisco Silva, e Lampião, o Rei do Cangaço, Antônio Teodoro dos Santos.
A iniciativa, à época, foi mal recebida pelo público e por estudiosos, que ainda incorriam no equívoco de enxergar o cordel como uma manifestação folclórica antes de ser simplesmente literatura. Eram as mesmas vozes que reclamavam das capas coloridas e da apresentação editorial diferenciada da Prelúdio. Mas as razões do insucesso passam longe das críticas. Os textos foram publicados na íntegra, com cada estrofe ilustrada por um quadro (exceção aos títulos ilustrados por Rosso, maiores que a média). Havia, porém, um problema: a inexistência de balões nos diálogos, o que comprometia o dinamismo que a linguagem das HQs exige. Outro desajuste era o nome – ou nomes – da coleção: Folclore em Quadrinhos ou Histórias do Norte em Quadrinhos. O termo cordel não era ainda popular entre o público.
A aventura, se não foi malograda, não cumpriu o que prometia: as baixas vendagens abortaram a possibilidade de novos lançamentos. Hoje, esse material inédito – que inclui quadrinizações de Vicente, o Rei dos Ladrões, de Manoel d’Almeida Filho e de Vida e Testamento de Cancão de Fogo, de Leandro Gomes de Barros – faz parte do acervo da Luzeiro, editora que sucedeu a Prelúdio e coedita o presente trabalho.
A quadrinização
A versão em quadrinhos do Pavão Misterioso foi garimpada por mim, Marco Haurélio, quando, em 2005, assumi, a convite do diretor, Gregório Nicoló, o editorial da Luzeiro. Em 2006, durante uma visita do editor e poeta popular cearense Klévisson Viana a São Paulo, surgiu a ideia de trazer de volta esse clássico num formato mais arrojado. Klévisson sugeriu a inserção de balões e uma melhor distribuição dos quadrinhos, mais adequada aos novos tempos. Quadrinista premiado, duas vezes vencedor do HQ Mix, Klévisson sabia do que estava falando. Foi assim estabelecida uma parceria entre a paulista Luzeiro e a cearense Tupynanquim, de Klévisson. No mesmo período, chegavam, via e-mail, valiosas informações sobre a vida e a obra de José Camelo, colhidas pelo inquieto José Paulo Ribeiro, de Guarabira, PB, bancário aposentado e um dos maiores entusiastas do cordel que conheço. A valiosa foto do poeta, que ilustra o livro, foi encontrada por ele em usuas peregrinações pelos muitos cartórios da região do Brejo Paraibano.
A possibilidade de ver o arquetípico Pavão alçando mais um voo – depois de ter servido de inspiração a tanta gente – da música ao teatro, da telenovela a outros gêneros literários – é o desafio de todos nós, editores e amantes da poesia do povo.
Sobre Marco Haurélio

Marcus Haurélio Fernandes Farias (em arte, MARCO HAURELIO) nasceu na localidade Ponta da Serra, na época município de Riacho de Santana, sertão baiano, aos 05 de julho de 1974. São seus pais: Valdi Fernandes Farias e Maria Fernandes de Souza Farias. Desde muito cedo entrou em contato com a literatura de cordel, escrevendo a primeira estória com apenas seis anos de idade. Em 1995 fundou, em Serra do Ramalho–BA, o jornal O Vigilante Comunitário, com o qual fustigou a corrupta elite política local. Em 1997 radicou-se em São Paulo onde conheceu o poeta popular cearense Costa Senna, com quem dividiria a autoria de Jesus brasileiro, lançado em 2002. Hoje, Marco Haurélio é uma das grandes referências nacionais da literatura popular, como poeta ou estudioso da mesma. Atualmente, é o selecionador de textos para publicação da Editora Luzeiro, de São Paulo, função antes exercida pelo grande poeta popular Manoel d’Almeida Filho. Em cordel, entre outros títulos, escreveu:
A história de Belisfronte, o filho do pescador;
O Romance do Príncipe do Reino do Limo Verde;
A idade do Diabo; Nordeste – Terra de bravos;
Serra do Ramalho, um Brasil que o Brasil precisa conhecer;
A briga do major Ramiro com o Diabo;
História da Moura Torta;
Os Três Conselhos Sagrados;
Os Apuros de Chicó e a Astúcia de João Grilo;
O Herói da Montanha Negra;
As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Todos;
As três folhas da serpente, entre outros.
Para Marco Haurélio: “Não há, em nenhum outro país, uma literatura popular com o mesmo vigor daquela praticada no Brasil. E o cordel, gênero da poesia popular, é o maior responsável por essa honraria. Entrei em contato com o cordel ainda criança, na Ponta da Serra, localidade rural do sertão baiano, no município de Riacho de Santana. Quem me apresentou à literatura de cordel foi minha avó paterna, Luzia Josefina. Ela era também grande contadora de histórias. Num armário antigo, na sala, estava o baú do tesouro: uma gaveta na qual ela guardava os folhetos e romances de cordel. Aos seis anos eu já sabia o que queria. Com essa idade, tentei escrever o primeiro cordel. Aos oito eu já fazia ABCs (cordéis mnemônicos que seguem a ordem do alfabeto), poemas diversos e vários romances de cordel, espalhados por muitos cadernos que guardo como um tesouro.”

astúcia de camões